Blog da Casa das Matryoshkas

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Impressões de Lima

 

Por que viajar é aguçar os sentidos…

 

Lima tem o céu todo branco durante cerca de oito meses do ano, ficando levemente azulado entre dezembro e março, período do verão. Não se podem ver as estrelas ou a lua à noite. Na cidade, praticamente não chove. O índice pluviométrico anual é de cerca de 10 mm. Não há sombrinhas ou guarda-chuvas. Os telhados das casas e dos prédios são planos. Não há bueiros nas ruas. Mas o chão amanhece úmido, devido a uma suave e quase imperceptível garoa. Assim ocorre devido, dentre outros fatores, à corrente fria de Humboldt ou corrente do Peru, corrente oceânica mais fria do mundo que percorre o Pacífico, com uma temperatura de aproximadamente – 8° C inferior à temperatura média do oceano na mesma latitude e que impede a evaporação.

Os dias em Lima são, pois, nublados e, no mês de julho, havia uma  boa umidade no ar. Pelas ruas, muitas espécies de flores, algumas comuns no Brasil, como bouganvilles, orquídeas e madressilvas. O clima estava agradável, embora a ausência de céu azul tenha causado, inicialmente, certa estranheza.

Os peruanos são amáveis e têm um profundo sentimento de amor à Pátria. Havia bandeiras do Peru nas casas, nas janelas, nas lojas, nas praças e nos carros, coisa que, no Brasil, só acontece em época de Copa do Mundo. Não sei se é sempre assim ou algo que ocorre em julho, mês em que se comemora a independência do País no dia 28.

Há muitas livrarias em Lima e excelentes  e bem cuidados museus. O de Pedro de Osma, no boêmio bairro de Barrancos, vale o passeio não só pelo seu acervo de imagens e quadros de santos, mas sobretudo pela beleza e imponência da mansão da família de origem espanhola.

O Museu Palácio Arzobispal de Lima, ao lado da Catedral, na Plaza Mayor, nos dá uma minuciosa aula sobre os fatos marcantes do Cristianismo, com cada uma de suas salas divididas por temas específicos.

Mas o mais charmoso fica nos arredores de Lima, o Museu Rafael Larco Herrera, que abriga a maior coleção privada de arte pré-colombiana peruana, além de um curioso acervo de esculturas e vasos que retratam a vida sexual dos antigos povos que ali viveram. Seu restaurante, Cafe Del Museo, leva a assinatura do Chef Gáston Acurio e é uma excelente opção para descansar, enquanto se saboreia a rica culinária peruana depois de um passeio pelo Museu e seus jardins, repleto de flores maravilhosas. A sobremesa que pedi – Mousse de Lúcuma, uma fruta que não existe no Brasil, me evocou memórias da infância na casa de minha avó materna, com um sabor que me fez lembrar a deliciosa ambrosia que ali se fazia.

Aliás, a culinária peruana merece uma atenção à parte. Como sou vegetariana, enquanto meu marido se deliciava com os pescados e frutos do mar, me esbaldei ao descobrir os diferentes tipos de batatas, milhos e quinoas cultivados no País.

A opção de ceviche vegetariano, com cogumelos frescos, batatas, cebola e milho, oferecida pelo excelente restaurante Punto Azul, não me deixou ficar frustrada por ter ido ao Peru e não ter experimentado seu mais famoso prato.

Verdadeira iguaria, o camote, uma espécie de batata doce, com um perfume maravilhoso adocicado, foi uma das boas surpresas que encontrei, sobretudo quando misturado com quinoa nas famosas hamburguesas, o hambúrguer local.

O discreto restaurante Rafael, mais do que pelos pratos principais, se destacou pelos deliciosos pães assados na hora, servidos como aperitivos com maravilhoso azeite aromatizado.

No Tratoria Bodega, que conta com três estabelecimentos na cidade, degustamos uma das melhores sangrias já experimentadas, nos fazendo lembrar das que tomamos em Barcelona, à base de vinho rosé, com minúsculos pedaços de frutas e folhas de menta. O nhoque ao molho de 4 queijos provocou uma explosão de sabores, derretendo na boca com suavidade.

O Pacífico com suas águas cinzas, às vezes marrons, banha Lima, mas, com exceção de seus peixes e frutos do mar, presentes nos principais pratos peruanos, não o percebi integrado à cidade. É que as águas do Pacífico em Lima são sempre geladas, cerca de 12° C e as ondas altíssimas das suas praias atraem apenas os corajosos surfistas, ávidos por aventuras.

No mais, os principais distritos, San Miguel, Magdalena Del Mar, San Isidro, Barrancos e Miraflores ficam situados na parte alta da cidade, muito acima da avenida Beira Mar.

O majestoso Gran Hotel Bolivar, localizado na Plaza San Martín, construído em 1924, já teve seu período de glória, mas ainda vale a pena tomar o melhor  Pisco Sour da cidade em suas imponentes varandas, apreciando a agitação e o burburinho das ruas em torno da praça.

O Shopping Larcomar, em Miraflores, é um bom exemplo da arquitetura moderna, construído abaixo do nível da rua, com três terraços escavados nos rochedos, com uma maravilhosa vista do Pacífico, repleto de lojas sofisticadas, algumas de rede europeia ainda não presentes no Brasil e ótimos restaurantes, dentre eles o Mango, também do Chef Gáston.

O trânsito em Lima é caótico. Sensação de existir mais carro do que espaço. Não existe metrô. É uma cidade com dificuldade na mobilidade urbana. Nas horas de pico, os ônibus circulam lotados e há várias kombis com número muito maior de passageiros do que o permitido. Não há taxímetro nos táxis porque os peruanos sempre gostam de negociar o valor da corrida. A recomendação é a de, antes de entrar no carro, combinar o valor a ser pago. Nos hotéis, eles nos orientam acerca do valor médio a ser cobrado para os principais destinos. Eles buzinam o tempo todo, a qualquer hora, por qualquer razão. Os pedestres precisam estar atentos, porque o risco de atropelamento é alto.

Mas, a verdade é que Lima encanta e nos recebe sem muita pompa, sem muito alarde, à  maneira dos peruanos. Não se nota aquele entusiasmo que percebemos na Argentina, no Uruguai ou no Chile, quando os locais identificam a  nossa nacionalidade.

Lima é mais discreta, assim como seus habitantes que nas tardes de sábado se divertem alimentando e acariciando mansamente os inúmeros gatos que invadiram o Parque Kennedy em Miraflores. Lima é chique, respira cultura e seu prêmio Nobel de Literatura, Mario Vargas Llosa, é devidamente reverenciado, em especial na Casa da Literatura Peruana, instalada no centro da cidade, numa antiga estação de trem.

Visitar o Parque das Águas com suas inúmeras fontes ao cair da tarde nos desperta o encantamento e a magia. Andar dentro do túnel ou no labirinto formado pelas fontes ou se deixar ficar apreciando a fonte em formato de pirâmide nos remete a esta atmosfera de sonho.

Conhecer as ruínas de uma civilização que viveu naquelas terras há mais de 8.000 anos, caminhar pelos locais onde aqueles povos antigos caminharam um dia, fazendo cultos para a Deusa Mar, cercado por modernos edifícios e restaurantes, nos incita a reflexão acerca da transitoriedade da vida no Planeta…

Lima, por tudo, é, com certeza, um precioso destino a ser visitado não apenas uma, mas inúmeras vezes, a fim de que esta instigante metrópole  possa se revelar, aos poucos, à alma do viajante que busca a autêntica experiência da descoberta de novas viagens na viagem sem fim…

(Heloísa Monteiro de Moura Esteves)